terça-feira, 23 de dezembro de 2008

.45 (2006)


Kat está cansada das ruas perigosas de Hell´s Kitchen e com a falta de ambição de seu parceiro Big Al. Muito independente Kat está louca para deixar a miséria de lado e chegar ao topo, mas Big Al está satisfeito com o bairro perigoso, cheio de pobretões, pequenos delinquentes e policias. Kat faz algumas vendas de armas nas costas de Big Al com a ajuda de Vic, uma mulher maravilhada com ela, mas Al fica furioso e perde a cabeça quando descobre que Kat está seguindo seu próprio caminho. Agora, Kat precisa se vingar. Usando seus atributos femininos, ela seduz uma diversidade de dissidentes da gangue, policiais e criminosos para ajudá-la em sua doce vingança. 6/10

IMDB



terça-feira, 18 de março de 2008

Cloverfield (2008)


Nova Iorque. Um grupo de jovens organiza uma festa de despedida para Rob, um amigo de longa data que vai trabalhar para o Japão nos dias que se seguem. Hud, o melhor amigo de Rob, está de máquina de filmar em punho a documentar tudo o que se passa, desde os testemunhos de despedida, à melancólica discussão entre o seu amigo e a ex-namorada. De um momento para o outro, um súbito e violento estrondo - como se de um tremor de terra se tratasse - acaba com a animação. Dirigem-se ao topo do edifício e dão conta que Nova Iorque está sob ataque. Do quê? Não fazem ideia, mas sabem que podem nem sequer conseguir sobreviver para o descobrirem. Mas haverá ameaça neste planeta que suplante o amor de Rob por Beth?

Por onde começar? Porque não pela mistela mais proferida das últimas semanas em todo o Mundo: "Cloverfield" é uma junção do estilo artístico de "The Blair Witch Project" - filmagem amadora - e da essência destrutiva de "Godzilla" - onde um monstro gigante anda à solta, abalroando arranha-céus e cimentando o pânico entre milhões. No entanto, e já que estamos numa de o comparar a obras que marcaram o cinema - para o bem ou para o mal -, podemos ainda afirmar com todos os dentes que "Cloverfield" emana o pânico e o pavor que Spielberg não conseguiu passar com o seu "War of the Worlds" ou ainda que "Nome de Código: Cloverfield" está para esta década, como "Jurassic Park" esteve para a de noventa. Isto porque ambos conseguiram provar que a indústria de massas ainda não esgotou a sua criatividade e originalidade, produzindo um produto que origina o seu próprio sub-género, reinventado conceitos e concepções, repetindo fórmulas - monstro ataca, pessoas morrem, todos fogem, alguns escapam - de modo inovador, segundo novas perspectivas. No entanto, e tal como acontecera com "Parque Jurássico", ambos poderiam ter sido mais. Muito mais.

Revigorante? Sem dúvida. Vertiginoso? Óbvio. Abordagem tão rara como extraordinária? Irrefutável. Narrativa dramática previsível, quase idílica, algo redundante, e com uma mão-cheia de cenas desnecessárias? Infelizmente, sim. Nada que arruíne a nobre intenção de Matt Reeves em dotar "Cloverfield" de uma dimensão poética e lancinante, rara no género, que nos deixa a torcer pelo herói, como se fôssemos a personagem por detrás da máquina, parte do filme e da acção. Com uma evidente conexão ao 11 de Setembro - tanta pela desorientação das pessoas perante o impossível, como por alguns dos diálogos e imagens que marcam o "combate -, ao "América versus Mundo" - ou não fosse Cloverfield um anagrama de "Love Fidel C." - e à incapacidade de qualquer império ou nação perante o imprevisível, "Nome de Código: Cloverfield" é, nas suas bases, um contra-senso tão colossal como delicioso, que junta a suposta balbúrdia e algazarra da destruição maciça e dos seus milhões de dólares, à intimidade sublime de qualquer produção independente de Sundance.

Repleto de mistérios, quase todos deixados sem respostas, e uma carrada de pequenos (mas fabulosos) pormenores - como o "splash" final na praia, que juntamente com as declarações do realizador, dão a entender que o monstro veio do espaço e não passava de um recém-nascido, ou, por exemplo, o facto de as gravações começarem às 6:42 do dia 22 de Abril e acabarem, precisamente, às 6:42 do dia 22 de Maio - "Cloverfield" é, como alguém o disse por aí, "um blockbuster da geração Youtube". Um filme de massas, na primeira pessoa, que mesmo com tanta astúcia e engenho lá pelo meio, não conseguiu evitar o truque um dia genial, agora rasca, da visão nocturna. Pormenores e por maiores que o fazem oscilar durante oitenta minutos entre o prodigioso e o banal. Ditosamente, a balança acaba por pender para a genialidade de Reeves, Abrams e companhia.7/10




Jumper (2008)


David Rice é um "Jumper", um teletransportador - uma anomalia genética permite-lhe teletransportar-se a si próprio para qualquer lado. David pode ver 20 pores-do-sol em apenas um dia, levar a sua namorada pelo mundo inteiro num piscar de olhos e agarrar milhões de dólares em minutos.

É quando a sua vida leva uma reviravolta que David descobre que este dom existe há muitos séculos e se vê impiedosamente perseguido por uma organização secreta que jurou matar "Jumpers". Juntando-se numa aliança pouco sólida com outro jovem "Jumper", David entra numa guerra que se tem travado há milhares de anos.

Perseguido por todo o globo, ele lentamente descobre a verdade estonteante acerca do seu próprio passado e sobre a sua família. Do centro dos Estados Unidos da América para as ruas de Tóquio e as ruínas de Roma, a odisseia mundial de David é o primeiro capítulo de uma aventura épica. 6/10



Enchanted (2007)

Giselle, uma princesa "do passado", é expulsa por uma diabólica rainha da sua mágica terra e transportada para os dias de hoje, até à energética cidade de Nova Iorque. Rapidamente, depois do primeiro impacto, a princesa Giselle começa a alterar a sua opinião sobre a vida e o amor depois de conhecer um charmoso e bonitão advogado. Pode uma história romântica de amor, que só acontece nos livros, sobreviver ao mundo real? 7/10

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terça-feira, 4 de março de 2008

Basic Instinct 2 (2006)


Realização: Michael Caton-Jones. Elenco: Sharon Stone, David Morrissey, Charlotte Rampling, David Thewlis, Hugh Dancy, Anne Caillon, Iain Robertson, Stan Collymore, Kata Dobó, Flora Montgomery, Jan Chappell. Nacionalidade: EUA, 2006.

Há 15 anos descruzou as pernas — e tornou-se um ícone do cinema. E um símbolo sexual, que papéis menores apenas faziam adivinhar. Hoje, aos 48 anos, Sharon Stone regressa ao filme que a persegue, mas não à cena. Para quem procura essa provocação de Catherine Tramell, a personagem de Sharon, este não é o filme. E também não é o filme com o nervo de Paul Verhoeven, o realizador anterior, apesar de arrancar com uma cena cheia de velocidade (e no limite da verosimilhança), em que Catherine volta a ser responsabilizada pela morte de um companheiro de sexo e drogas. De resto, mudam algumas coisas: o cenário é a Londres moderna da torre Gherkin e não as colinas de São Francisco; o picador de gelo regressa, mas apenas para cumprir a sua função.

Viciada no risco, assim se descreve a famosa escritora ao psiquiatra que é designado para a avaliar, Michael Glass (interpretado por David Morrissey), depois da morte acidental (ou não), no início. O clínico é mais violento na análise: Catherine é alguém que só parará com a própria morte, um risco para si e para os outros.

O filme encarrega-se de o provar, numa sucessão de mortes violentas e sexo arrojado, ainda que tenham ficado de fora cenas mais ousadas (disponíveis na internet), contra a opinião da própria Stone, para evitar uma classificação etária que destruiria a carreira comercial da obra).

O realizador desta sequela, Michael Caton-Jones, que nos trouxe "The Chacal" ou "Rob Roy", prefere uma abordagem mais cerebral e obviamente mais psicanalítica. Se o corpo (em excelente forma física, digamos assim) de Sharon Stone ajuda a construir a personalidade perversa, complexa e ambígua de Catherine Tramell, o realizador parece ficar de braços cruzados, a contemplá-lo, sem saber bem como lidar com a sua força erótica (e Stone sublinha-o, cada vez que fala do filme).

O fascínio entre Glass e Tramell é tecido por uma malha de mentiras, insinuações e sedução. Mas o instinto diz-nos que, apesar do aparentemente (es)forçado "twist" final, a ambiguidade mora ao lado e este é um filme quase banal. E pouco fatal. 4/10




The Banquet (2006)


Titulo original: Ye Yan. Realização: Feng Xiaogang. Elenco: Zhang Ziyi, Daniel Wu, Zhou Xun, Ge You, Ma Jingwu, Huang Xiaoming. Nacionalidade: China, 2006
O cinema asiático está a esgotar a fórmula mágica dos efeitos visuais luxuriantes aplicados a histórias trágicas com amor à mistura (ou trágicas porque com amor). Sem o efeito novidade de “Crouching Tiger, Hidden Dragon” nem a poesia de “Hero” ou a bela narrativa de “House of Flying Daggers”, “Curse of the Golden Flower” anunciava já um decréscimo na qualidade global daquilo que começa a ser uma clara tipologia. Infelizmente, “The Banquet” continua essa senda, apesar de repetir alguma da equipa técnica dos primeiros dois filmes.

Numa livre interpretação de Hamlet, transposta para a Dinastia Tang na China do Século X, no instável período das Cinco Dinastias e Dez Reinos, um Imperador é assassinado pelo seu próprio irmão, Li (You Ge), que usurpa o trono, bem como a sua jovem e viúva cunhada, a Imperatriz Wan (Zhang Ziyi), e manda matar o seu sobrinho (e enteado da Imperatriz), o príncipe Wu Luan (Daniel Wu), legítimo herdeiro do trono e um melancólico actor que vive longe de casa. Decidido a obter justiça, o príncipe Wu Luan regressa à corte, onde o espera a sua prometida Qing (Xun Zhou), filha do Ministro Yin (Jingwu Ma), e irmã do impulsivo General Yin (Xiaoming Huang).

“The Banquet” está marcado pela força do destino, mas não precisaria ser tão previsível. Nem o intrigante final consegue salvar este filme de um tédio instaurado por um dramatismo que não consegue, em nenhum momento, cativar as nossas emoções. As personagens são motivadas pelo desejo, mas tirando a intensidade erótica de Zhang Ziyi, o abismo a que o seu instinto de sobrevivência a conduz nunca nos surge como verdadeiramente assustador (e ficamos a pensar no que uma Gong Li teria feito).

Com um design de produção, um guarda-roupa e uma coreografia de excepção, “The Banquet” está filmado com um extremo bom gosto, fazendo uso das cores na dicotomia entre o bem e mal e sintetizando a essência da filosofia oriental nas texturas dos cinco elementos: madeira - metal - água - fogo - ar.

Um filme sobre a loucura da vingança e as emoções desmedidas precisaria ser bem mais do que um melodrama telenovelesco colmatado por uma enjoativa música a la Céline Dion. 5/10




The Astronaut Farmer (2006)

Realização: Michael Polish. Elenco: Billy Bob Thornton, Virginia Madsen, Max Thieriot, Jasper Polish, Logan Polish, Bruce Dern, Mark Polish, Jon Gries, Tim Blake Nelson, Sal Lopez, J.K. Simmons, Kiersten Warren, Robert E. Fleischer. Nacionalidade: EUA, 2006.

Ainda estou para perceber como é que um grupo de bons profissionais se presta a gastar o seu talento num telefilme enjoativo como “The Astronaut Farmer”. Especialmente tendo em conta as referências dos gémeos Michael e Mark Polish de obras de qualidade como “Twin Falls Idaho” (1999) e “Northfork” (2003). Mas, em vez de um ponto de vista original sobre o poder dos sonhos (na dicotomia entre o seu lado mais inspirador e o mais destrutivo), tem-se um exaustivo conjunto de clichés sobre um herói americano.

Charles Farmer (Billy Bob Thornton) é um rancheiro texano, que deixou a sua carreira de engenheiro aeroespacial na força aérea e a caminho da NASA quando uma tragédia atingiu a sua família. Mas o seu sonho de ir ao espaço não desapareceu, e o seu celeiro foi transformado num hangar para um foguetão caseiro. A sua determinação em se lançar no espaço, orbitar umas quantas vezes em redor do planeta e regressar a casa recebe todo o apoio da sua mulher, Audrey (Virginia Madsen), e dos seus três filhos, Shepard (Max Thieriot), Stanley (Jasper Polish, filha de Michael) e Sunshine (Logan Polish, filha de Mark); ignorantes das dificuldades financeiras em que o projecto de Farmer os colocou a todos.

Quando Farmer tenta comprar a grande quantidade de combustível necessária para o lançamento, o FBI, a NASA e os media são alertados para este acontecimento surreal, indecisos entre classificá-lo como louco ou como uma ameaça à segurança nacional. Os oficiais da NASA, em concreto, torcem pelo falhanço de Farmer, uma vez que o seu exorbitante orçamento seria alvo de fortes críticas se um simples civil conseguisse fazer o mesmo que eles no seu próprio quintal e colocando o filho de 15 anos a controlar a missão a partir de uma auto-caravana.

A realização do argumento conjunto está a cargo de Michael, enquanto Mark interpreta o papel de um dos agentes do FBI enviado para supervisionar Farmer (a dupla mais interessante do filme). Mas aquilo que começa por ser um olhar interessante sobre o dilema entre liberdade e responsabilidade, sobre a dimensão doentia da suspeição governamental norte-americana (especialmente tendo em conta a “impossibilidade de insucesso” que marca a sua filosofia militar), termina num escalar de ingenuidade totalmente incredível.

Farmer ignora deliberadamente as necessidades – e as vidas! – que põe em risco, inclusive as da sua família, que, apesar do seu egoísmo galopante se recusa a fazê-lo enfrentar a realidade, uma compaixão que vai para lá do (ir)razoável. A personagem de Madsen, apesar de uns rasgos de personalidade própria, acaba por se auto-anular de uma forma quase dolorosa de assistir. É o homem fazendo os seus disparates infantis e egoístas, enquanto a mulher o desculpa e protege num amor totalmente desequilibrado.

Da mesma forma que, para Farmer, o potencial destrutivo das suas acções é irrelevante, ele atingir ou não o seu sonho tornou-se para mim, como espectador, completamente irrisório. Minto, o seu egoísmo fez-me afastar de tal maneira desta personagem que o seu falhanço começou a desenhar-se como o melhor final de todos. No entanto, tenho algumas dúvidas que fosse essa a intenção dos manos Polish. Um pouco à semelhança dos pioneiros do Oeste Americano, todos os sacrifícios parecem justificáveis face à loucura mortal de um sonho.


Muitas guerras começaram por muito menos... 5/10

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American Gangster (2007)

Realização: Ridley Scott. Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Ted Levine, Armand Assante, John Ortiz, John Hawkes, RZA, Ruby Dee, Common, Carla Gugino, Cuba Gooding Jr. Nacionalidade: EUA, 2007.

1968, Harlem, Nova Iorque. Bumpy Johnson (Clarence Williams III), o “dono” do Harlem, queixa-se ao seu motorista, Frank Lucas (Denzel Washington), do progressivo eliminar dos intermediários e do prejuízo que isso significa para os seus “negócios” familiares. Quando Johnson morre, Lucas assume a liderança e faz uso de todos os ensinamentos para tomar conta do tráfico de heroína na cidade. Ironicamente, o seu êxito é garantido pela eliminação do intermediário, e pelo contrabando directo da droga vinda da Tailândia em caixões de soldados americanos mortos na guerra do Vietname. Este processo permite-lhe vender droga de superior qualidade a metade do preço sob o nome de marca Blue Magic.

Do outro lado do espectro moral está Richie Roberts (Russell Crowe), um polícia de New Jersey, marcado pelos colegas pela sua incorruptível honestidade e empenhado em tirar o curso nocturno de direito. Enquanto o casamento de Roberts vai por água abaixo Lucas trata a sua mulher, a Miss Porto Rico 1970, como uma rainha; enquanto Roberts recruta um grupo de polícias para uma nova unidade de combate ao tráfico de droga que dirigirá, Lucas traz a sua família da Carolina do Norte e coloca os seus irmãos em posições chave da cadeia de distribuição. Estas linhas paralelas de acção são reforçadas pela irónica dicotomia vivida por estes dois homens: Lucas ganha a vida de forma desonesta, mas na privacidade vive segundo estritos códigos morais; pelo seu lado Roberts, um profissional honesto e dedicado, tem a sua vida pessoal afogada em mentiras e frustrações.

Apesar da sua comum determinação, tanto Lucas como Roberts são humilhados e ameaçados pelo corrupto detective Trupo (Josh Brolin), da Unidade Especial de Investigação da polícia de Nova Iorque. Mas o seu confronto directo só acontece no final do filme, quando a ascensão deste dealer, misto de cavalheiro e assassino sem misericórdia, termina numa inevitável queda. Esse é o momento que sintetiza a força da realização de Ridley Scott (“Gladiator”, “A Good Year”), até pelo revigorante que é ver Denzel Washington a fazer de mau. Porém, tudo mais parece não ter passado de uma contextualização sem grandes emoções, e Scott parece não ter ido muito além da epiderme destas personagens.

O mesmo acontece com a tradução histórica que, apesar de esteticamente nos transportar para os anos 70, à qual fica a faltar o ambiente de desordem e desencanto esperado. Fica também por explorar o racismo que subjaz à incredulidade de que um negro pudesse ter, por si mesmo, mais sucesso do que a máfia. Mas em vez de se aprofundar, “American Gangster” alonga-se. Apesar disso, algum crédito tem de ser dado à mestria da narrativa, que consegue agarrar-nos sem bocejos.

O argumento de Stephen Zaillian, que adapta o artigo de 2000 "The Return of Superfly” da autoria de Mark Jacobson publicado na New York Magazine, é competentemente trabalhado pelos dois protagonistas (apesar de ambos estarem longe de qualquer lista que eu pudesse fazer). Mas os meus olhos fugiram, inevitavelmente, para Chiwetel Ejiofor, que interpreta um dos irmãos de Lucas, e para a curta aparição de Cuba Gooding Jr. como o dealer Nicky Barnes.

Se não se esperar demasiado (deixei de o fazer em relação a Ridley Scott desde “Thelma & Louise”), não se fica desiludido. Como em tudo na vida... 8/10

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domingo, 2 de março de 2008

Into The Wild (2007)



Realização: Sean Penn. Elenco: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Brian Dierker, Catherine Keener, Vince Vaughn, Kristen Stewart, Hal Holbrook. Nacionalidade: EUA, 2007.


1990: Christopher McCandless (Emile Hirsch) tem 20 anos e acaba de terminar a universidade. Em vez de se preparar para o previsto curso de direito, Christopher levanta o dinheiro do seu fundo escolar, faz um donativo à Oxfam e abandona a sua família e a sua casa numa busca espiritual de renascimento fora do contexto de tirania das expectativas da sociedade, da sua definição de êxito e do materialismo que o rodeia. 1992: Christopher encontra-se no Alasca, fazendo de um autocarro abandonado a sua casa, caçando sem grande sucesso, lendo os livros que o inspiram e consultando um compêndio de plantas comestíveis.

Adaptando o livro homónimo de Jon Krakauer, o filme de Sean Penn reconstrói o caminho de Christopher em flashbacks ordenados cronologicamente, ao mesmo tempo que acompanha a sua estadia no ‘Magic Bus’ (actualmente um ponto de atracção para muitos jovens que se revêem na sua viagem espiritual).

O objectivo de Christopher é reinventar-se através de uma vida de pureza e negação. Para isso abandona o seu carro, o seu dinheiro e escolhe o nome Alexander Supertramp. Ao longo da sua odisseia pela América, Christopher beneficia da caridade de estranhos (aqueles cujos relatos são a fonte do livro e com o casting de quem Sean Penn parece ter sido particularmente cuidadoso e generoso, como que agradecendo-lhes): Wayne (Vince Vaughn), um amigável agricultor do South Dakota, o casal hippie Rainey e Jan (Brian Dieker e Catherine Keener), Ron (Hal Holbrook), um homem idoso que se afeiçoa a Christopher e que propõe adoptá-lo. Todos eles o confrontam com as suas escolhas e não é sem bastante apreensão que o vêem partir.

No seu idealismo, Christopher transforma-se num eremita, recusando todos os prazeres, abraçando a natureza e equipando-se para a sobrevivência (em suma, contentando-se com o mundo). Mas a natureza é tão bela quanto dura, tão generosa quanto implacável. Tão selvagem e assustadora quanto uma vida fechada em redor de uma carreira profissional e de um monte de empréstimos bancários.

“Into the Wild” não é uma explicação de Christopher (cujo diário serviu também de fonte). É apenas uma reflexão (não isenta de remorso) sobre um jovem que se deixou dominar pelas suas irrevogáveis escolhas, na busca de uma felicidade fora dos parâmetros sociais. É impossível não ler a sua rebelião contra os pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) que ele considera o epíteto da falsidade. Paradoxalmente, a reaproximação um ao outro (e a sua humanização aos nossos olhos) é feita em torno do desaparecimento de Christopher. O que é difícil de entender é como Christopher se afasta da irmã Carine (Jena Malone – responsável também pela narração), a única a aceitá-lo e a alcançar, ainda que só em parte, as suas motivações.

Sean Penn está tão “apaixonado” por Christopher que recusa olhar para a sua teimosia ou egoísmo: eliminando a possibilidade da dúvida, negligenciando a estupidez de algumas das suas opções e atenuando a escravidão de Christopher ao seu ideal – adulterado cada vez que ele olha para o céu com o rasgo de um avião (ou à procura dele). É esta parcialidade que fragiliza “Into the Wild”.

É facilmente compreensível a necessidade de fuga, da ausência de pessoas, do silêncio. Mas não deverá ser preciso ignorar ou romper com os nossos afectos para perceber que a maior riqueza da vida reside na partilha. Christopher aprendeu-o da forma mais dura. A sede de coerência pode fazer-nos escravos dos nossos sonhos.

Emile Hirsch é hipnótico, cumprindo todo o esforço físico que o papel exige. E os breves segundos em que William Hurt se desmorona à frente dos nossos olhos é imensamente poderoso. E faz-nos sentir raiva por Christopher, no seu processo de melhoramento, ter retirado essa possibilidade a quem o amava. Mas também não conseguimos impedir-nos de sentir uma forte admiração (arriscaria até inveja) por essa coragem que nos falta. 7/10



sábado, 19 de janeiro de 2008

No Man's Land (2001)

Dois lados de uma guerra, um bunker perdido algures entre território sérvio e bósnio, os quais lutam numa guerra de irmãos. Danis Tanovic realiza este filme sobre a guerra entre sérvios e bósnios, uma guerra personificada por três homens, uma bomba, um maço de cigarros num bunker. É uma história simples que junta lados diferentes no mesmo bunker, um argumento intenso com espaço para a comédia sobretudo quando duas das personagens se envolvem em lutas ridículas. O realizador bósnio teve como objectivo claro apresentar um filme com um sentido crítico muito forte, sobretudo em relação à ajuda humanitária da ONU, ao mesmo tempo que questiona a razão de uma guerra falada na mesma língua dos dois lados. É uma excelente produção europeia, premiada em Cannes, simples, intenso e com um humor muito cruel. 8/10

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